top of page
Buscar

Economia da cultura, cinema e turismo: O norte amazônico de fronteira visto nas telas

  • associacaocinemarr
  • 18 de set. de 2023
  • 4 min de leitura

O ex-ministro da Cultura, sociólogo Juca Ferreira, em artigo publicado no LeMonde Diplomatique intitulado “Economia da Cultura: grandeza e complexidade” (20 de abril de 2023), traz números importantes sobre a economia da cultura e as indústrias criativas. Estas contribuem com 3,11% do PIB, ficando à frente da indústria automotiva (2,50%) e um pouco atrás da indústria de construção (4,06%). Na crítica à banalidade do uso das expressões ‘Economia Criativa e Indústria Criativa’, Ferreira, que foi ministro da Cultura em dois governos (a primeira vez em 2008 e depois, em 2014) afirma que estas expressões (provenientes do inglês) foram popularizadas no Brasil sem compromisso com os conceitos e significados originais. Por isso, ele evita entrar no debate sobre ‘economia criativa da cultura’ e opta por dissertar sobre a ‘Economia da Cultura’. A expressão não é escolhida à toa.


Diz o ex-ministro que “O conceito de economia da cultura, ao mesmo tempo que engloba o conjunto mais restrito de atividades das chamadas indústrias criativas e a economia que lhe é associada, incorpora, também, estas muitas outras ‘áreas’ da dimensão simbólica deixadas de lado ou ignoradas na formulação conceitual da indústria e economia criativas”. (...) “Boa parte da economia da cultura, como se apresenta hoje no Brasil e em muitos dos países latino-americanos, não pode ser considerada atividade industrial e não estão submetidas ao regramento da propriedade intelectual ou autoral; algumas porque ainda não assumiram as características de indústria e outras porque nunca assumirão, apesar de gerarem ocupação, emprego e renda”. Portanto, a fusão de valores econômicos e valores culturais, para ele, exigem análise para evitar superficialidades aproximadas ao consumo banal.

A brilhante explanação representa a acuidade de uma visão de mundo que entende a economia da cultura como um fenômeno que, por um lado: se afirma como uma das mais promissoras fontes geradoras de riqueza no século XXI. Por outro, entende que tal fenômeno não está limitado a uma simples compreensão economicista, pois prevê o desenvolvimento humano. Nesse sentido, a contribuição simbólica e cidadã da cultura precisa estar na agenda de quem pensa a cultura enquanto política pública. Como diz o sociólogo, tal preocupação deve estar presente: “desde a formulação das políticas públicas e em todo o sistema cultural até nos mecanismos regulatórios que normatizam essa economia”.


A Amazônia do extremo norte brasileiro tem belezas singulares. A visão economicista tem reduzido suas riquezas a uma compreensão simplória de metabolização da floresta em mercadoria. Entretanto, com as possibilidades tecnológicas da vida moderna, outra imagem da fronteira norte amazônica tem chegado há dezenas de países com maior velocidade nos últimos anos. Uma imagem de afirmação positiva sociocultural e ambiental feita por meio das câmeras. O principal canal é o audiovisual. Dessa forma, o mundo tem percebido a potência cinematográfica que está em Roraima e, por isso, cineastas tem sido premiados e selecionados para mostras e festivais no Brasil e no exterior. A Amazônia, sob o estereótipo de pulmão do mundo, é semioticamente convertida em um Melting Pot, um caldeirão cultural.


Nesse contexto, o fenômeno da economia da cultura é sentido na base do processo fílmico até sua catarse na exibição da obra para além das fronteiras geográficas. O cinema exige recursos técnicos e humanos em muitas escalas, gera emprego, renda direta e indireta, constitui-se em uma arte que envolve uma plêiade de profissionais, indo além. Traz elementos subjetivos em suas múltiplas narrativas, como a memória, as paisagens, o passado, o futuro, as músicas, efeitos sonoros, projetando emoções que são contextualizadas para um fenômeno temporal que se dá na exibição: o tempo presente. É por elementos como: narrativa fílmica, identificação com os personagens, proposta de clímax, os pontos de virada, som e cores, que o espectador pode se conectar consigo mesmo, com seus dramas, medos, traumas, descobrir-se, mudar de opinião ou sonhar. No campo simbólico, o cinema permite um salto de qualidade central para o debate da cultura.


No campo econômico, um segmento que pode melhorar suas atividades, lançando mão da potência do audiovisual é, sem dúvida, o turismo. No caso de Roraima, modalidades como por exemplo: turismo cultural, etnoturismo, ecoturismo, geoturismo, turismo de aventura, turismo de pesca e de observação de pássaros, encontram no audiovisual seu maior aliado. A reflexão de Juca Ferreira sobre a economia da cultura aplica-se neste particular. É pela riqueza dos símbolos amazônicos e a afirmação do pertencimento local que o cinema pode ser uma vitrine importante para o desenvolvimento econômico regional.

O turismo de base comunitária, incentivado pelo estado, é tão central no desenvolvimento das comunidades autóctones, quanto a afirmação positiva da imagem promovida pelo cinema etnográfico. Este cinema e seus diversos outros gêneros tem brilhado em festivais e mostras internacionais, assim como na TV aberta, como por exemplo, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a Mostra Internacional do Cinema Negro de São Paulo e o Canal Futura, alguns dos vários espaços de exibição que têm selecionado obras fílmicas de realizadores roraimenses.


A lista de estados brasileiros e países que buscam conhecer o que é produzido no campo do cinema em Roraima é extensa. São premiações e seleções provenientes do esforço pessoal dos realizadores e realizadoras que poderiam abrir mais portas para a economia da cultura no estado. Como aponta o ex-ministro, “essa economia, tem que estabelecer, desde o seu planejamento, uma articulação e uma relação equilibrada entre o valor de troca dos bens culturais (e os demais aspectos econômicos), com o valor de uso, ou seja, com a ‘razão de ser’ - a finalidade da arte e da cultura e suas funções e significados mais profundos na vida dos seres humanos, evitando desnecessários impactos negativos e, até mesmo devastadores, sobre a dimensão simbólica da sociedade”.

 

Éder Santos


Éder Santos é cineasta, jornalista, sociólogo, doutorando em Geografia Humana pela UNIR, presidente da Associação Roraimense de Cinema e Produção Audiovisual Independente, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Modos de Vidas e Culturas Amazônicas (GEP Cultura/UNIR) e da Mostra Internacional do Cinema Negro (SP).

 
 
 

Comentários


bottom of page